Meu corpo
acordou cansado. Os olhos brilhantes aproveitando os últimos instantes daquele
momento que nunca mais se repetiria. Era a última vez que sentiria aquele
toque, aquela voz, aquela fala, aquele sorriso... e o som daquela respiração.
Nunca mais ouviria seus planos, suas angustias, seus saltos de felicidade, seus
olhos brilhantes, sua preguiça acordando, sua leveza ao deitar, seus movimentos
involuntários quando recebe carinho. O copo com a colher, uma mania linda sua.
Tenho medo de abrir o armário, de mexer no cantinho da bagunça do quarto sala e
encontrar uma poeira que me lembre você. Papai Noel deu e tirou de mim esse meu
melhor presente. “como ficarei sem sentir essa espinha?” – disse eu acarinhando
sua orelha. A ultima noite, debaixo do céu estrelado, com o blackout da cidade
que nos permitia ver as bolhas brilhantes do mar quando nos movimentávamos.
Aquela brisa... um último pedido de beijo que se realizou. Sim, nos amamos pela
última vez. Veio o carinho já saudoso. Era a última vez que meus olhos fitavam
esse olhar felino amoroso. Que dor, angustia. As lágrimas não cessavam,
sabíamos que aquilo ia acabar. Sua posição fetal de choro acalmada por água e
açúcar que também bebi... precisava, ainda preciso. Não me dei conta, mas dormi
e acordei pela última vez em seus braços. Uma sensação boa de proteção e amor.
Parecia que eu estava sonhando e aos poucos a realidade foi vindo a tona. Seu
caminho para o refrigerador “quer leite?” – foi a última vez que me perguntou
isso. Aceitei, pela última vez. E lá estava seu copo com a colher dentro, a
colher encostando em seu rosto. E o leite foi acabando e quando acabado deu
lugar a fumaça do cigarro que acendeu. E a cada trago o cigarro diminuía, e
conforme o cigarro diminuía, diminuía com ele o seu tempo perto de mim, e a
brasa do cigarro me queimava junto, ardendo cada vez mais, parecia sem filtro.
Suas coisas entrando na mochila. E eu me desfiz de algo que guardaria...
novamente uma blusa sua. “tem uma blusa sua no armário” – eu disse. E nada você
encontrava, parecia cego de tristeza, e o era. Achou a blusa cinza grafite, cor
que seria de nossa futura sala. Mais um cigarro aceso, agora ambos fumavam e
minhas lágrimas quase apagavam o meu. Olho para o canto e vejo novamente o copo
com a colher, vazio. Sua ação de por sua toalha, usada apenas duas vezes, no
cesto de roupa era mais um sinal do último, assim como meu último bilhete pra
você colocado escondido em sua pasta enquanto tomava seu banho. Foi em 11 de
dezembro de 2010 que trocamos o primeiro beijo, e exatos 2 anos depois demos o
último, mais uma vez esse último que insiste em aparecer. Terminamos os
cigarros e você me pergunta “onde está a chave?” eu embargado respondo e aponto
para ela, você sai sem a mochila, escuto o barulho do cadeado se abrindo, você
volta e fecha a porta para me dar um último abraço, um último beijo no rosto e
uma última frase “fica bem, vou indo.” E eu solto a voz pra dizer “essa é a
pior parte, te ver fechar essa porta, não quero ver isso.” E tapo meus olhos
com uma das mãos a soluçar enquanto você sai. Ouço o barulho do portão abrir,
fechar. O cadeado trancado. Corro o olhar para a janela, abro a cortina a
chorar e vejo pela última vez você andando em minha rua, apressado, querendo
sumir, arrasado e focado, sem olhar para trás. E vira a esquina, sumindo da
minha vista. Fecho essa cortina e me encolho e sussurro “ Adeus, mô!” Um último adeus ao
meu que se foi, mas que fica, aqui, pra sempre!
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